Segunda-Feira, 17 de Agosto

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Pesquisa aponta que 67% dos jovens deixariam Caxias do Sul se pudessem

Levantamento com 1.044 jovens revela contraste entre o vínculo com a cidade, a confiança no futuro e o desafio de reter talentos

Celso Sgorla
Celso Sgorla Publicado em 17/08/2026 18:25
  Foto: Gerente da Fundação Marcopolo, Luciano Balen - Júlio Soares/Objetiva/divulgação

Dois em cada três jovens de Caxias do Sul deixariam a cidade se tivessem oportunidade. O dado faz parte da pesquisa O Futuro que  Queremos, apresentada pelo gerente da Fundação Marcopolo, Luciano Balen, durante a RA (reunião-almoço) da Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Caxias do SUL (CIC Caxias) nesta segunda-feira (17). Realizado em 2025 com 1.044 jovens entre 15 e 29 anos, o levantamento revela um contraste: 81% acreditam na possibilidade de uma vida próspera no futuro e mais de 80% dizem gostar de Caxias, mas 67% afirmam que iriam embora se pudessem.

Para Balen, o resultado acende um alerta sobre a capacidade do município de criar condições para que as novas gerações realizem seus projetos de vida em Caxias. “A nossa cidade está perdendo talento”, afirmou. Segundo ele, muitos jovens têm acesso a boas escolas, aprendem idiomas e buscam qualificação, mas acabam encontrando fora do município as experiências e oportunidades que procuram. “A nossa força, a nossa mentalidade vai embora com eles”, acrescentou.

A pesquisa integra um programa da Fundação Marcopolo que busca estimular uma reflexão coletiva sobre o desenvolvimento da cidade. Além dos 1.044 participantes do levantamento, cerca de 300 jovens foram ouvidos em entrevistas audiovisuais realizadas pelos próprios alunos da Escola Marcopolo de Criatividade. O trabalho procura identificar sonhos, expectativas, hábitos e percepções da população jovem sobre Caxias do Sul.

Na abertura da RA, o presidente da CIC Caxias, Ubiratã Rezler, destacou a necessidade de pensar o desenvolvimento econômico associado ao planejamento de longo prazo. “Não existe cidade inteligente sem desenvolvimento econômico”, afirmou. Ao abordar a importância de projetar o município para as próximas gerações, Rezler lançou uma questão que também permeou a apresentação de Balen: “Que cidade estamos preparando para os nossos jovens?”.

Jovens querem continuar estudando

Entre os aspectos positivos identificados pelo levantamento está a relação dos jovens com a educação. Dos entrevistados, 93% estudam e 91% afirmam que gostariam de continuar estudando ao longo da vida. Para Balen, os números demonstram que a nova geração já percebe a necessidade de aprendizado permanente diante das transformações do mundo do trabalho.

O levantamento também mostra que 51% dos participantes já trabalham. Quando questionados sobre o setor em que gostariam de atuar daqui a dez anos, 52% apontaram serviços, 43% administração, 30% indústria e 12% comércio. Os resultados, segundo Balen, também devem servir de referência para empresas e instituições que discutem formação profissional e atração de mão de obra.

Sono, ansiedade e convivência entram no radar

Outros resultados mostram desafios relacionados à qualidade de vida. Quatro em cada dez jovens dormem menos de seis horas por dia. Entre os entrevistados, 38% disseram sentir ansiedade algumas vezes e 24%, na maior parte do tempo. Há ainda relatos de solidão mesmo na companhia de outras pessoas, tristeza e irritação frequentes. Para Balen, os indicadores precisam ser analisados em conjunto com os hábitos e as oportunidades oferecidas à juventude.

A convivência aparece, justamente, entre as principais preferências dessa geração. Conversar com amigos foi citado por 83% dos participantes, enquanto 50% gostam de passear pela cidade e 44% apontaram os esportes entre as atividades preferidas. Apesar disso, cerca de um terço não pratica esportes habitualmente e aproximadamente 40% não têm o costume de frequentar parques e praças.

A relação com a cultura e a leitura também integra o diagnóstico. A pesquisa mostra que 24% dos jovens não mantêm vida cultural ativa. Balen defendeu que a cidade amplie o repertório oferecido às novas gerações, valorizando desde a música e as tradições locais até bibliotecas, eventos, espaços esportivos e ambientes de convivência.

Cidade como espaço de oportunidades

Ao longo da palestra, Balen defendeu que o desenvolvimento de Caxias seja pensado para além da infraestrutura e da atividade econômica, incorporando qualidade dos espaços públicos, educação, cultura, esporte, convivência e oportunidades. Para ele, uma cidade capaz de atrair e reter talentos precisa ser também um lugar onde as pessoas queiram circular, encontrar-se e construir seus projetos de vida.

Nesse processo, ressaltou, a responsabilidade não deve ficar restrita ao poder público. Empresas, entidades, instituições de ensino, organizações sociais e cidadãos também precisam participar da construção de um projeto de longo prazo para o município. “O plano de cidade não pode ser feito por uma parcela. O plano de cidade tem que estar na boca de cada cidadão”, afirmou.

Ao citar Medellín, na Colômbia, como referência, Balen destacou a transformação vivenciada pela cidade nas últimas décadas, associada a investimentos em educação, cultura, esporte, mobilidade, tecnologia, espaços públicos e governança. Segundo ele, a experiência demonstra a importância de construir um projeto coletivo e de longo prazo, com a participação do poder público, do setor empresarial e da sociedade. Ao concluir, reforçou que o desafio de manter as novas gerações em Caxias do Sul passa por tornar o município mais atraente para viver, estudar, trabalhar e conviver. “A gente tem muito mais aspectos que nos unem do que nos separam nesse lugar, nessa cidade”, afirmou.

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