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Pesquisador da UCS realiza defesa de dissertação de mestrado em português e em língua indígena

Franco Junior Marval Javier, nascido na Venezuela, pertence à etnia Taurepang

Celso Sgorla
Celso Sgorla Publicado em 18/06/2026 11:10
  Foto: Foto: Bruno Zulian/divulgação

Em um movimento que coloca os povos indígenas como protagonistas da produção de conhecimento sobre si mesmos, o Programa de Pós-Graduação em Letras e Cultura (PPGLet) da Universidade de Caxias do Sul realizou nesta quarta-feira, dia 17 de junho, a primeira defesa de dissertação de mestrado bilíngue do PPGLet. O venezuelano Franco Junior Marval Javier, 38 anos, originário da etnia Pemon Taurepang, apresentou a pesquisa “A Cosmovisão das Histórias de Origem na Literatura Indígena Pemon-Taurepang”. A defesa foi realizada em português e na língua taurepang, e o trabalho recebeu nota dez.

Pesquisador da UCS realiza defesa de dissertação de mestrado em português e em língua indígena
Foto: Bruno Zulian/divulgação

Morador de Caxias do Sul desde janeiro de 2024, Franco teve sua apresentação acompanhada por quatro pessoas originárias da mesma etnia que também residem na cidade. Estima-se que cerca de 50 mil pessoas façam parte do povo Pemon Taurepang na Venezuela. Além disso, a etnia também está presente na Guiana e no norte do Brasil.

Franco graduou-se em Educação Intercultural Bilíngue na Venezuela. Para a realização da pesquisa de mestrado, fundamentou-se em quatro livros escritos por autores da etnia e no idioma nativo, e alguns textos em espanhol. As obras foram publicadas na Venezuela nos últimos anos. Sobre aspectos fundamentais da pesquisa, Franco reforça a importância de respeitar algumas características inerentes ao povo. “Não falo em nacionalidade. Esse é um conceito de filosofia ocidental. Não dá para se referir ao taurepang venezuelano ou brasileiro, ele é um taurepang que mora no território chamado Venezuela”, explica.

Cada livro pesquisado possui uma quantidade distinta de autores. O que conta com o maior número de colaboradores foi escrito por 42 escritores. Por possuir um “lugar de fala”, uma vez que é integrante da etnia, Franco explica que isso facilitou a produção acadêmica. Porém, o desafio se concentrou em escrever de forma que a compreensão fosse facilitada por pessoas que não possuem proximidade com a vivência indígena.

Os relatos apresentados nos livros retratam a vivência taurepang, que mescla a religiosidade com o cotidiano. “Se eu vou entrar em uma floresta, nos primeiros cinco minutos eu preciso fazer silêncio para pedir licença”, exemplifica.

Para o bom desenvolvimento da dissertação, foi fundamental a contribuição da professora orientadora Cristine Fortes Lia. A docente foi a responsável por fornecer um embasamento teórico para que o trabalho não fosse influenciado por obras de escritores brancos. “A categorização literária, ou seja, se os livros analisados são fábulas, contos ou produções de outros gêneros, isso é uma premissa muito ocidental. Ao tratar de literatura indígena, essas categorias não existem”, explica Cristine.

Por falar sobre aspectos da própria vivência do pesquisador, a orientadora deixou clara a importância de esclarecer todos os detalhes do contexto. Para a docente, a pesquisa apresenta muita originalidade e, por isso, podem ocorrer dificuldades de compreensão. “A academia precisa se abrir para as novas pesquisas, e esse trabalho desenvolvido pelo Franco é marcado por isso”, conclui.

Manutenção da cultura

Filho de pai venezuelano, Franco é categórico ao dizer que sempre foi mais adepto das origens indígenas da mãe, originária da etnia Pemon Taurepang. “Falávamos uma língua mais interessante que o espanhol, o contato com a natureza, uma quantidade maior de desafios, entre outros pontos”, detalha. Apesar de estar afastado há quatro anos do local onde nasceu, Franco afirma que nunca se distanciou da cultura taurepang, principalmente a gastronomia.

 

 

 

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